quarta-feira, 15 de abril de 2009

Um Dó, La, Si e...

Vinha guardando esse texto para mostrar a amigos. Mas então pensei... por que não postá-lo? Afinal, muitas dessas pessoas queridas acabam, uma hora ou outra, acessando meu blog.

Esse texto foi digitado em poucos minutos numa noite qualquer, depois que passei o dia todo imaginando e reprisando o diálogo mentalmente. Eu gostei muito de fazê-lo. Achei divertido de ler depois de pronto.

Dó, Lá, Si

por Maxmiliano Franco Braga

    Ela termina o café enquanto ele entra trazendo os pães. Ele batuca com dois baguetes na mesa e ela responde tilintando a colher do açúcar na taça de suco. Pronto! É sinal de que irá começar novamente uma velha discussão. Você tem sorte! Essa é das boas. Quem ouve e vê pela primeira vez pensa que é puro improviso. Parece uma conversa normal que caminha para uma discussão. Eles parecem medir o que vão dizer, procurando com cuidado as palavras. Porém, para alguém que já assiste a esta discussão há décadas, como eu, é ainda mais fascinante. Parece até que eles seguem um roteiro. Palavra por palavra. Nota por nota. Nunca faltou uma letra sequer. Nada muda. Nem as frases, nem os pontos, nem as vírgulas. O assunto é sempre o mesmo. Os argumentos não mudam. E o vencedor, sempre se repete. Não sei como não se cansam. Parece até um ritual. Mais pontual que oração matinal. Tão certo quanto no prato dele tem leite e cereal. Olhe lá! Já vão começar. Silêncio. É sempre ele quem fala primeiro. Não! Não olhe para mim. Olhe para eles. E cuidado para não ser visto por trás da cortina. Eles são tímidos. E não pise as margaridas. Ela as ama mais do que gosta provocar o marido.
    - Dó é ou não é a nota mais bela?
    - E o que há de belo em algo tão grave?
    - É aí que está a beleza. Entra pelos ouvidos e faz-te tremer-te por dentro. Sentes todo teu corpo vibrar em uma só freqüência. É como a beleza da rosa que passa por teus olhos e te faz arrepiar.
    - Entretanto a beleza da rosa é aguda, como um belo, longo e estridente si. Tão delicada ela é quanto a mais fina voz feminina.
    - Confesso que percebo todo o encanto da voz feminina. Da tua inclusive, que é a mais perfeita que na terra já ouvi. Ainda assim, o mais belo som que eu já ouvi foi o mais grave que com tua fina voz conseguiste produzir. E digo mais! O dó vem primeiro. É o princípio. Abre tudo!
    - Não te lembras que antes de qualquer dó há um si?
    - Ah, tenha dó! Agora tu vens com uma falácia! É como dizer que dezembro vem antes de janeiro...
    - E não vem? Ah, se vem! Antes de qualquer janeiro vem dezembro.
    - Sim! Mas é um dezembro passado, morto e enterrado. Se antes de qualquer dó vem um si, saibas que antes deste si existe um lá, antes do qual há um sol, precedido por fá, que não vem antes de um mi, o qual precede um ré, que só veio depois do dó!
    - Ah, tenha dó! Tu e tuas convenções. Se pensares assim, terás sempre um ciclo sem fim!
    - Pois não é! Para tudo na vida existe um começo. E eu digo que nas escalas musicais é o dó! É a primeira nota da escala perfeita sem acidentes, portanto é o princípio de tudo. Se pensares que um dia chegarás à primeira escala, e antes dela não haverá outra, estejas certa que no início dela, encontrarás o mais grave e notório dó.
    - Pois eu discordo! Lá pode muito bem ser a primeira. Pois para mim, perfeição de escala é algo de ser menor. Não precisa ser nada grande ou maior do que já conheço. Basta começar em lá, também sem acidente algum. E digo mais! Qual é a primeira letra do alfabeto? Não precisa dizer. Se quiser, apenas pense. Pois bem! Minha escala começa com A.
    - És tu advogada de quem? De Lá ou de Si, mesmo?
    - Sou defensora da justiça. E não vejo nada de justo em eleger um filho predileto.
    - Pois deixa-me escolher os meus favoritos que para ti eu deixo os teus. 
    - Falas como um pintor que só usa o marrom, e joga no ralo todas as outras belas cores que poderia misturar na tela. Tenta, então, fazer música com tuas grossas cordas de navio usando apenas dós, que eu do meu clarim sopro tudo o que quiser, de lá à lá. Aí está o meu protesto!
    - Insistes em começar com lá. Pois pra mim tudo começa com dó. Da escala maior, a primeira cantada e a primeira emitida. Quando Adão disse sua primeira sílaba, tenho certeza que se não foi dó, foi, ao menos um ó, ao falar com Deus e admirá-lo.
    - Quanta arrogância. Suponha, e esta será apenas uma hipótese, que eu aceitasse teu dogma de que o dó é a primeira nota, então tu terás que concordar comigo que o si é o gran finale. O que melhor pode haver para terminar tua doída escala iniciada com dó? 
    - Veja bem, minha querida, e pense com cuidado. Se, e somente se, teu si está na minha bela, perfeita e magnífica escala de dó maior, que começa em dó, este si só pode estar antes do meu último dó, a oitava que me completa. Ou esqueceste que o fim é quase o começo?
    - Ah! Tenha dó! Tu e tuas convenções.

3 comentários:

  1. GOSTEI MUITO DO TEXTO. Me lembrou dois textos um n sei ao certo o porquê,acho que pq vc começou explicando,é o vestida de preto de Mário de Andrade, e essa citação de um eterno ciclo sempre me remete a Milan Kundera no insustentável leveza do ser.
    Gostei muito do texto, mesmo não enentendo muito de música.

    ResponderExcluir
  2. Obrigado!

    Vou procurar ler estes dois textos. Tenho que parar de fugir dos clássicos! =D

    ResponderExcluir
  3. Obrigada, Max, pelo comentário!
    Inclusive, amei-o.

    Gostei do seu texto, o começo é tão inspirador!!!
    E é engraçado ver duas pessoas discutindo por causa de duas notas músicais, rsrs.

    Beijos

    ResponderExcluir

Comentários são sempre bem-vindos...